domingo, 21 de março de 2010

Dia Mundial da Poesia!!

Hoje, dia 21 de Março de 2010 é o dia mundial da poesia, uma arte que na minha opinião não é para todos, só para aqueles que realmente conseguem e têm esse dom...
Se poesia existe em todas as línguas, em todos os países, em todas as culturas... A portuguesa tem um cunho especial.... os poemas em português soam a um Fado metódico que é adocicado pelo sentimento de saudade bem tipico em Portugal.
Sempre tivemos grandes poetas portugueses desde António Botto, passando por Sophia de Mello Breyner chegando até a Pessoa!!!*

Como tal, não quis de deixar passar esta data em branco e decidi dedicar este post a um oficio que por muitos sarrabiscos e rabiscos que faça nunca conseguirei fazer.... Comecei a gostar do que as palavras na boca dos poetas eram, bem não sei ao certo, mas sei que me fascina o mundo da poesia desde muito pirralha e ainda hoje tenho a mania de ler um poema aqui ou acolá, deste ou daquele poeta, deste ou daquele assunto. Tenho a percepção de que a poesia une Nações, une povos, pois mesmo não percebendo o que se quer dizer com o poema sentimos um arrepio na "espinha" sempre que ouvimos e vemos as nossas palavras a rimarem de forma extraordinária.

Hoje decidi escolher um poema de Ricardo Reis (Heterónimo de Pessoa), um poema que me fascina, pois sempre que olho para ele sinto que é um poema actual, um poema que se adecua ao nosso cantinho de céu... Um poema que demosntra o quão rude pode ser a sociedade!!!

Jogadores de Xadrez
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.
À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário.
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.
Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo de xadrez.
Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao refletir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.
Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.
Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predileto
Dos grandes indif'rentes.
Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida.
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,~
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.
Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.
Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.~
O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.
A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.
Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.

Poesia - arte que se distingue tradicionalmente da prosa pela composição em verso e pela organização rítmica das palavras, aliada a recursos estilísticos e imagéticos próprios; composição literária em verso; conjunto das obras em verso, escritas numa língua ou próprias de uma época, de uma escola literária, de um autor, etc.; característica poética que pode estar presente em qualquer obra de arte; carácter daquilo que, por ser considerado belo ou ideal, desperta uma emoção ou sentimento estético.


Nota. Os nomes não estão colocados de forma organizada por datas de nascimento, gerações ou importância

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